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Só no Sá

12 mar
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“Está fazendo um dia de sol. A praia estava cheia de um vento bom e de uma liberdade. E eu estava só. Sem precisar de ninguém.” O trecho do livro Água Viva, de Clarice Lispector, caiu poeticamente no meu colo naquele fim de tarde rosé no Leblon. Isso depois de um dia inteiro de contemplação, em que andei pelo calçadão, mirei e namorei o morro Dois Irmãos, que também poderia se chamar Dois Amantes, pela maneira íntima como as pedras se encaixam. Há muito tempo eu não ficava completamente só em uma cidade que não a minha. Tinha esquecido de como era a minha própria companhia. À noite, o combinado seria encontrar uma amiga para jantar. Mas por algum motivo cósmico nos desencontramos. O restaurante, reservado para duas, estava lá. E não era um restaurante qualquer. Era o “Sá”, dentro do hotel Miramar, ícone de uma Copacabana cheia de glamour, recém-repaginado e com chef novo no comando. Vou ou não vou? Tentei mais duas amigas, mas as duas estavam fora do ar ou fora do Rio bem naquele fim de semana. “Se Anália não quiser ir eu vou só”, lembrei do antigo hit de Dorival Caymmi, já que a cidade estava em clima de pré-Carnaval. E encarei todas (ou quase) as questões que sente uma mulher jantando sozinha. A solidão é uma mulher só em um restaurante de hotel, pensei comigo (oras, com quem mais?), embora existam muitas e muitas pessoas jantando sozinhas em restaurantes e hotéis pelo mundo. Para mim, contudo, confesso, não é confortável. Mas “cheguei chegando”, arrumada, sorridente. A hostess me indicou a mesa para dois e eu disse no tom mais bem resolvido que pude: “Minha amiga não vem, mas eu vim”. O lugar de canto, com parede de vidro e vista para o calçadão de Copacabana, me acolheu lindamente. Fui recebida com uma taça de espumante. Tin-tin! O restaurante estava tranquilo, com uma mesa ocupada aqui e ali, um casal de meia idade, outra mesa com uma turma que me pareceu ligada ao esporte. Uma vantagem de estar sozinha é ser logo adotada pelos garçons e pelo maitre –mas com um atendimento sob medida, nem demais nem de menos. O jovem chef Paulo Góes também apareceu para dar um alô e me ajudou na escolha: na entrada, fiquei entretida entre o polvo confit e as vieiras servidas com creme de couve flor, chips de batata doce e vinagrete de maracujá. A segunda opção chegou à mesa feito obra de arte (na foto acima). No prato principal, mudei para carne. Não resisto a um carneiro. Acertei no carré grelhado, com molho de tomilho, servido com polenta e minicebolas caramelizadas, e um vinho tinto dos deuses. Tinha pedido ao chef para ele voltar e conversar um pouquinho. Então entendi tudo: Paulo Góes trabalhou no Mugaritz, na Espanha (uma casa com 3 estrelas no Michelin e na lista dos melhores do mundo), depois com Alex Atala, no DOM, e também com Claude Troisgros, no Olympe, sem contar a herança culinária da mãe –a chef Maria Victória do Bar do D’Hotel, no hotel Marina.  Claro que uma boa companhia faria toda a diferença. Mas, sozinha, apreciei os detalhes de cada prato, até a sobremesa –um delicado mix de docinhos, com muito chocolate, capaz de arrematar qualquer carência. O jantar foi tão agradável que quase me esqueci que estava só. Afinal, jantei como uma rainha. E dormi como um anjo.
 
Va lá: Sá Restaurante, Hotel Miramar by Windsor, Avenida Atlântica, 3668 – Copacabana, Rio de Janeiro, tel (21) 2195-6200.
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